Para tornar as coisas ainda mais promissoras, a manhã adivinhava um dia particularmente afortunado, para início do mês sucessor ao das quedas de neve: estava sol!
Acabámos por fazer uma bela e inesperada ronha, apenas por solidariedade à pregnant Andrea, que esperava a visita do funcionário do Borough para verificação da casa. Para que tudo lhe corresse bem, deveriam concluir que a casa não oferecia as condições necessárias para criar o futuro bebé, por estar ocupada por demasiadas pessoas... uma crowded house, portanto (rico trocadilho de trintão, este). Posto isto, até era bom que o funcionário visse duas pessoas enfiadas na cama, para dar um ar ainda mais crowded à situação. De mim, só deve ter visto o cocuruto, pois aproveitei a ocasião para me enterrar mais um bocadinho entre os cobertores, o colchão e o Mikey. Ah ronha maravilhosa...
A manhã foi disfrutada entre o pequeno-almoço, o duche, a preparação do farnel para a tarde e uns dedos de conversa com o Pedro, até que partimos, enfim, para aventura.
O início de tarde desenhava um cenário perfeito para revisitar o verde-vivo dos Hilly Fields. Mas logo a memória pregou-me uma bela partida: virámos na rua errada e fomos parar... ao cemitério de Brockley (onde eu nunca tinha estado antes, entenda-se)! Depois de contornarmos o terreno numa rua que parecia não ter fim, já eu desfolhava freneticamente o “A to Z” do Pedro e começava a irritar-me com tamanho “isto não estava nos meus planos” - feitio feio, eu sei.... Valeu-nos a “coolness” do Mikey para recuperarmos o norte, usando o melhor método do mundo: perguntar a alguém! Neste caso, a uma senhora “carteira” (é mesmo assim que se chamam as senhoras que distribuem correio às pessoas?).
E eis que apareceram, os Hilly Fileds! As lembranças foram inevitáveis: das travessias a caminho de Lewisham, da imagem relaxante a partir da janela da sala, dos banhos de sol estendido na toalha, de olhos fechados e a imaginar-me na Costa, da camada de branco após a neve de Fevereiro, das tardes de jogging da Joana, dos piqueniques, das catarses e co-criações à volta do círculo de pedras, do fogo-de-artifício a 360º a marcar a passagem de 2004 para 2005... Sabia bem estar ali novamente. E foi emocionante passar à porta da minha ex-casa, o nº 25 da Montague Avenue. Estava tudo igual, excepto as cortinas novas nas janelas da antiga sala.
Descemos a Harefield Road até à estação de Brockley, entusiasmados com uma real vontade de passear.
Para bem sentir a pulsação da cidade, nada como sair em Tottenham Court Road, a fascinante encruzilhada de algumas das artérias mais vibrantes de Londres. Depois de uma paragem no Nero para um café, era necessário comprar pilhas para a máquina fotográfica e sumos para o almoço. Lembrei-me de um pequeno Tesco em Dean Street, já à entrada do Soho, e lá fomos nós. O Sol tornava as ruas do bairro mais gay de Londres ainda mais… “gay” (leia-se “alegre”) e atractiva. Logo ali, a Soho Square afigurava-se ideal para o nosso brunch e para as primeiras fotos da viagem. Naquele banco de jardim, com a sanduíche de queijo e o sumo de maçã na mão, senti uma alegria imensa - por estar ali com o Mikey, por vê-lo tão contente, por tudo estar a saber tão bem!
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Havia que tirar melhor partido do sol: a paragem seguinte tinha mesmo que ser o Hyde Park. Em vez de nos enfiarmos no metro, descemos a Oxford Street inteira, onde fomos encontrando aqueles elementos visuais irresistíveis ao olhar do turista, entre os souvenirs alusivos à cidade nas gift shops, passando pelo frenesim das mil e uma lojas de vários andares (ainda entrámos numa Zara, só para perceber as diferenças), até aos famosos double-decks que circulavam, aos magotes, na estrada.

Foi como eu previa: adorei fazer aquela travessia, por nela ter sentido a tal pulsação de que já sentia saudades.
O final da rua sugeria a entrada noutra dimensão, devidamente assinalada por Marble Arch, a fazer as vezes de portal. Atrás do grande arco de mármore, o campo de visão ganhava uma nova amplitude, com uma vasta mancha de verde a anunciar o grande parque da cidade.
Moradia do palácio de Kensington, do lago Serpentine, da estátua onírica do Peter Pan, de vastos hectares de relvado e árvores e, claro, dos nervosos esquilos, o Hyde Park é o verdadeiro retiro da Londres frenética. Ali, dá mesmo vontade de nos estendermos na relva e esvaziar a mente. Não foi o que fizemos, pois a humidade da relva não era lá muito convidativa, mas disfrutámos certamente daquela paz, a caminhar e a conversar sobre tantas coisas.
Pelo meio, bati finalmente o meu recorde de aproximação aos esquilos (há 4 anos atrás, as criaturas fugiam de mim a sete pés), usando pedaços da outra sanduíche como argumento principal na operação de charme. Resultou na perfeição: depois do primeiro, veio outro, e mais outro, e mais outro! Dei por mim a sentir-me o messias dos esquilos, enquanto o Mikey fotografava o fenómeno.

Outro dos momentos altos foi o banco de jardim, que gritava “local romântico!”... “Notting Hill!”... Não resistindo ao chamamento (pelo contrário, venha ele!), usámos o modo automático da máquina do Mikey e tirámos uma bela foto lá sentados – se me fizessem uma endoscopia naquele momento, veriam que até os meus órgãos internos estavam a sorrir. Juro!
Imortal tournou-se, também, o grande momento das placas sinalizadoras de Kensington e do Memorial de Diana, protagonizado pelo Mikey. Ninguém melhor que ele mesmo para falar deste episódio, tão deliciosamente relatado no seu blogue.
Saímos do Hyde Park numa das orlas mais posh e caras da cidade: South Kensignton, com os seus hotéis e apartamentos mega-hiper-re-luxuosos. Foi luxo de pouca dura, pois a tarde já ia alto e outra grande e tão ansiada paragem esperava por nós: a Tate Modern! Enfiámo-nos do subsolo, que agora dava jeito, e apanhámos o metro para St. Paul's.

A ideia seria passar pela catedral, piscar o olho a mais um local ultra-familiar (era este o terminus do Bus 172, que eu e a Joana usávamos para ir e vir da faculdade) e atravessar a Millennium Bridge até à margem sul, onde a antiga central eléctrica, convertida em galeria de arte moderna, nos recebia. Assim foi. O sol continuava desimpedido no céu e o final de tarde estava quase perfeito, não estivesse o vento tão estupidamente frio que até nos bolsos do casaco se enfiava.
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Os deuses estavam do nosso lado: enquanto procurávamos o horário de funcionamento da galeria, para perceber quanto tempo teríamos para nos regozijarmos, ficámos a saber que a 6ª feira era o único dia da semana em que a Tate estava aberta até às 23h00! Ah país evoluído...
As horas que se seguiram foram um absoluto festim para os sentidos, o intelecto e o espírito. A incursão pelos 3 dos 5 andares da Tate foi marcante para ambos: para o Mikey, por sentir-se no 7º Céu e chegar mesmo a apertar-me o braço para conter a emoção (não é todos os dias que se partilha o mesmo espaço com tantas obras e artistas de eleição); para mim, por sentir que acabava de alargar as minhas fronteiras perceptivas, pois pela primeira vez, estava realmente aberto à linguagem de uma arte que nunca consegui perceber muito bem, chegando até a troçar dela. Degluti o sapo e deixei-me cativar pela energia e solenidade que se respirava naquele templo do pensamento e da criação contemporâneas.
E como o que vimos naquelas quase 3 horas foi mesmo muito, decido deixar eventuais referências para futuros posts - terei que fazer valer-me dos folhetos que trouxe e das anotações do Mikey para recordar coisas que, entretanto, a memória vai arquivando.
Refastelados, como quem sai daqueles almoços que duram uma tarde, saímos da Tate para ter a primeira visão da noite de Londres (naturalmente, Lewisham não contou), lindíssima. Os pés e as pernas já davam sinais, bem como o estômago, que a sensação de saciedade era somente extrafísica.
Não foi difícil concordarmos que o dia de passeio estava dado por terminado. Agora, o que queríamos mesmo era regressar a casa, comer uma bela refeição enlatada, deliciarmo-nos com um Madeira Cake, passar uns bons momentos à conversa com o Pedro, vestir o pijama e... dormir!