terça-feira, 7 de outubro de 2008

A verdade sabida vs a verdade vivida

«No fundo, o Ocidente sempre esperou dos seus mentores receitas absolutas, respostas definitivas, a derradeira equação apta a tudo apreender e explicar (...). Enquanto os nossos filósofos nos empaturram de sistemas apetecíveis, nos encharcam de teorias excitantes, crepitosas, nós deixamo-nos seduzir, quando não hipnotizar.

Aquilo que o filósofo é ele próprio, na sua vida e no seu ser, interessa-nos bastante pouco. Se ele for um pobre diabo, psicológica e nervosamente abatido, levando uma existência em contradição com os seus princípios pessoais, o facto não nos incomoda por aí além. Os problemas particulares de um Kant, de um Hegel, de um Bergson ou de um Sartre parecem-nos decididamente alheios à questão. O que nós queremos é um achado, o achado que nos permita captar, fixar, aferrolhar a verdade de uma vez para sempre. Pouco importa quem nos faculta este achado, Jeová, Lúcifer, o grande Manitu, Freud, o KGB, Jerry Lewis ou o supermercado da esquina.

O Oriente sabe, desde há milénios, que não existe uma resposta absoluta encunciável, que a verdade não pode ser enclausurada em conceitos, apreendida intelectualmente, antes devendo ser vivida, concebida, percebida através de uma experiência directa, implicando uma transformação radical do nosso modo usual de consciência.

A verdade não é uma ordem de ideias: ela diz respeito ao ser e ao vivido.»

Patrick Ravignant, A Sabedoria da Índia

1 comentário:

Fred disse...

Concordo com tudo o que dizes embora tenha somente alguma coisa a acrescentar.
Na minha modesta opinião de pessoa que somente aprendeu pela experiência própria nessa área, os nossos filósofos de facto tentam apresentar por palavras informações que não são transponíveis de serem transcritas mas somente sentidas. O ponto que queria acrescentar é o que todos nós tentamos fazer diaramente, trazer ao intelecto o sentimento. Faz parte na assimilação do nosso meio, é também devido ao facto do sentimento estar sempre à margem e à frente da nossa compreensão.
Acredito que a frase feita de que a curiosidade matou o gato está equivocada no que diz respeito ao mamífero. lol.
Para concluir, na procura não existe encontro. Não existe explicação para quem tente explicar, uma vez que o sentimento só se torne real quando sentido. Não existe nenhum vocabulário, objecto ou qualquer imaginação que poderá transpor a outro ser humano o que estamos a sentir no mais íntimo do nosso ser. Não será melhor tentar de deixar de o fazer?