sábado, 11 de outubro de 2008

Heróis do Mar

Conheço a música dos Heróis do Mar desde miúdo, mas só comecei a escutá-los seriamente aos 20-e-muitos anos, numa altura em que a banda estava já enterrada no "arquivo morto" da música portuguesa e era lembrada uma ou outra vez na febre revivalista dos "eighties", qual peça de museu para a nova geração de trintões e seus manos mais novos.

Talvez este "delay" de 2 décadas se deva ao facto de só conseguirmos entender e apreciar certas coisas com uma certa idade.
Talvez se deva ao estranho fenómeno colectivo, tão tipicamente português, de marginalizarmos o que de mais inovador se faz na música nacional e celebrarmos apenas o que fácil e "popularucho".

Foi justamente levado na corrente do "eighties are back" que retomei contacto com a música dos Heróis do Mar e percebi, no meio das "chicletes" e dos "bem bons", que havia ali algo de profundamente significativo e ímpar no nosso espólio cultural. Trocando por miúdos: este foi o grupo que imprimiu o conceito de "futuro" na música portuguesa.
nm

Em 1981, data de lançamento do primeiro single, Portugal vivia mergulhado no stress pós-traumático da ditadura e na euforia revolucionária da música de intervenção. Não admira que canções como "Brava Dança dos Heróis" ou "Saudade", com toda a imagética de suporte (as poses, as roupas, os adereços), invocando o sentimento de Pátria e de uma nostalgia quase dolorosa, fossem recebidas com desconfiança e até mesmo hostilidade por parte da crítica e do público. Vestidos de militares e empunhando a Cruz de Cristo, os cinco jovens chegaram mesmo a ser acusados de fascistas e neonazis, por uma sociedade ainda iletrada do ponto de vista musical e estético, ainda fechada nos extremismos políticos do "é ou não é".
nm

«Dos fracos não reza a história
Cantemos alta nossa vitória.»
Brava Dança dos Heróis, 1981

«Ao redor desta fogueira
Enquanto as armas descansam
Deito meus olhos aos céus
Pelas estrelas dos teus.»
Saudade, 1981

O que de mais impressionante nos releva o grupo, no album de estreia "Heróis do Mar", é a capacidade de reinventar o imaginário pesado e algo bafiento da memória lusitana, convertendo-o para códigos estéticos absolutamente inovadores para a época. É o primeiro grupo português a sentir os ventos da New Wave britânica e a beber da inspiração neo-romântica de grupos como os Spandau Ballet ou os Duran Duran. No entanto, sem prescindir da riqueza do folclore português.
O tambor e o acordeão dialogando com o sintetizador e o baixo.

Um ano depois da chegada controversa, o grupo decide ceder um pouco e apanhar as massas pelo ouvido: gravado em apenas 22 minutos, "O Amor" conquista o público e os media, levando o grupo à ribalta.

Os ânimos da populaça voltam a esfriar com "Mãe", o segundo álbum lançado em 1983. Desta vez, a crítica está do seu lado, reconhecendo a riqueza musical que ignorara no longa-duração anterior. Um é a extensão do outro, mas não o seu prolongamento.
"Mãe" traz-nos a voz de Rui Pregal da Cunha num novo registo, mais andrógeno - o conquistador também é um rapaz frágil. Traz-nos mais ritmos dançantes, invocando cenários de folia que, embora castiça, é profundamente sensual. Traz-nos uma capa lindíssima. Traz-me "Volta P'ra Mim", uma das minhas canções favoritas.

«Eu a ver-te dançar
Já quase não dou por mim
São grandes momentos
Serão sempre assim.»
Cachopa, 1983

«Mãe
O beijo que ontem me deu
Não vai sossegar esta minha saudade
Pai
O abraço de ontem não morreu
Nem a nossa amizade
Nem a nossa amizade

Vela branca ó branca vela
Vou contigo marear
Vela branca ó branca vela
Longe pr'além deste mar
Adeus pátria linda
Adeus querido lar
Adeus Tejo amado
Até eu voltar.»
Adeus, 1983

A carreira do grupo não iria para lá de 1990. Os Heróis do Mar tinham terminado o seu serviço e deixado uma marca indelével na nossa música e cultura popular.
Usá-los apenas para mero exemplo ilustrativo de uma data é um simples sinal de ignorância.


Em falta: o album "Macau", de 1986, que nunca ouvi na íntegra.

Um artigo interessante: Heróis do Mar: Uma Lenda Por Contar, de Rui Miguel Abreu, Blitz, Agosto 2006
nm
Um blog a visitar: Brava Dança

1 comentário:

Anónimo disse...

onde anda um dos temas mais apreciados na altura, o "a glória do mundo, aleluia..."?

Este saiu de circulação, agora, no séc. XI, por ser de temática claramente católica. Estranho não é?!