sexta-feira, 20 de junho de 2008

The London Diaries (III)

(e as fotos são do Mikey)

Sábado, 8 de Março: DAY THREE

Parecia que as nuvens e a chuva tinham vindo para ficar para o nosso fim-de-semana em Londres. Mas tal não interferia na nossa vontade de aproveitar aquele 3º dia da estadia a bater perna pela cidade e disfrutar da condição de turista.

O relógio marcava as 15:00 quando nos pusemos a caminho do centro. Logo para começar, enquanto a visão se habituava ao cinzento predominante do dia, na descida pela Harefield Road demos de caras com um “pequeno” apontamento de cor rosa-choque, sobre 4 rodas – outrora um táxi comum, agora parecia convertido em objecto particular, traduzindo primorosamente a vertente kitsch de muito londrino.
E o respectivo dono logo se manifestou, no segundo em que o Mikey puxava da máquina fotográfica e enquadrava a relíquia: saíndo do salão de cabeleireiro do outro lado da rua, uma rapariga de cabelo a condizer com a viatura correu para junto desta, qual mãe protegendo a sua cria, enquanto nos perguntava se éramos funcionários do Borough e se havia algum problema...



Findo o estranho episódio, lá se tirou a foto e seguimos em direcção a Westminster, para visitar o pai da cidade: o velho e obrigatório Big Ben.

À saída da estação, percebemos que não éramos os únicos resistentes ao mau tempo: a ponte de Westminster encontrava-se apinhada de turistas, como era habitual.
Enquanto nos tentávamos abstrair do vento e da chuva miudinha, para apreciar a magnificiência das Houses of Parliament e do Big ole’ Ben, outro momento de interacção com desconhecidos: uma mulher claramente italiana abordou-nos, para que lhe tirássemos uma foto, junto de outra mulher claramente italiana – logo o nosso gaydar sinalizou “namoradas!!!”.
Aproveitei a deixa para lhes pedir que nos tirassem uma foto também, a mim e ao Mikey. E mais outra, que estas coisas são de aproveitar. Agradecimentos feitos, dávamos por terminado o momento “euro-gay pride” da viagem – ou, se preferirmos, o encontro de culturas mediterrânicas no novo século.


Passámos a Westminster Abbey e, a caminho de St. James’ Park, parámos para fotografar o Mikey num dos mobiliários urbanos talvez mais atraentes e emblemáticos de sempre: a cabine telefónica vermelho-vivo. Esta seria uma das fotos de eleição da viagem: simplesmente perfeita.

Mais à frente, o parque de St. James fazia-me sentir como uma cidade tão cinzenta como Londres, num dia tão cinzento como aquele, pode produzir cores naturais tão vibrantes e variadas – tantas quanto as espécies de flores que nos estimulavam a vista.

E porque é de contrastes que Londres é feita, a paz dos jardins, do lago e dos animais de St. James deu lugar, num abrir e fechar de olhos, a um novo frenesim de carros, pessoas e arquitectura, com um dos nós mais atraentes da cidade: Trafalgar Square, com o seu obelisco ao centro, ladeado pelos enormes leões de bronze e a lindíssima National Gallery atrás.
Logo me lembrei das vezes que por ali passei de autocarro, a caminho do trabalho, ou da enorme árvore de Natal que ali é montada, por tradição.

A vibração do local e as memórias fizeram-me querer subir o Strand e mostrar ao Mikey o teatro que acolhia o meu musical de eleição. Tive pena, pois «Chicago» tinha sido substituído por «Joseph and The Amazing Technicolor Raincoat».

Sandwiches degustadas, a chuva miudinha que teimava em cair e a vontade de beber um café bem quente empurraram-nos para o Leon’s - um café giro giro, de inspiração 50’s, com uma empregada gira gira e bem simpática. Escolhemos a melhor mesa (a que se encostava à montra) e, entre conversas e fotos, apreciámos o café, o movimento do Strand e tudo o que nos estava a acontecer naquele momento, nas nossas vidas.


Saímos do café para descobrir um raio de Sol (típico de Londres...) e rumar ao West End e a Covent Garden – seguramente, uma das paragens que eu mais ansiava.
Escusado será referir o bem que soube andar novamente por ali. No West End respira-se a magia do teatro e cada edifício, cada cartaz, é um convite que se recusa a muito custo.

A tarde ia a meio e o Mikey sugeriu que eu ligasse ao André, para combinarmos uma saída para essa noite. Em casa do Stuart, o seu novo boyfriend que convalescia de uma operação às pernas, o enfermeiro André sugeriu que nos encontrássemos no Strada, onde ele se ia encontrar com a João, com quem ia ver um concerto da Roisín Murphy (inveja!!!).

Combinação feita, entrávamos finalmente em Covent Garden, para cirandarmos por entre as mil-e-uma lojinhas, as bancas de feira do Apple Market e os animadores de rua.


Eram quase 18:00 e saímos da pequena wonderland, rumo à zona ribeirinha, onde a João trabalhava. Atravessámos a ponte de Waterloo e descemos junto ao National Theatre, onde entrámos para uma visita às instalações.

Já à porta do Strada, avistámos o André e a João que, assim que me viu, saiu disparada do restaurante para se atirar a mim, provavelmente no abraço mais abrutalhado e escorregadio da história humana – há coisas que nunca mudam.
Daí até à estação de metro mais próxima, pusemos a conversa em dia (já não via aquela miúda há anos) e combinámos uma saída para a noite.

Antes de regressarmos para o jantar, quis levar o Mikey a conhecer a meca de todo o consumidor de música e filmes: a HMV de Oxford Street. Dois andares de puro deleite, especialmente a secção de vinyl - que, ao que parece, está a voltar em força naquela ilha. Quase não resisti a trazer o 7’’ de “A&E”, o novo single dos Goldfrapp. Mas não queria sair dali de mãos a abanar, pois que não: entre tanta raridade que por lá andava, escolhi o DVD do belíssimo “The Misfits”, juntamente com um belo par de headphones daqueles de encher a orelha, bem mais baratos que em Lisboa (uns Sony a 15 libras???).


Com o bichinho das compras satisfeito, estava na altura de satisfazer o da fome: voltámos a Brockley para o já típico jantar “à lá Tesco” e mudámos de roupa, para a noitada que se avizinhava – ainda em Lisboa, decidimos que queríamos passar o nosso Sábado-à-noite londrino a dançar.

Contudo, e ao contrário do desejado, a noite foi, no mínimo, estranha:

1) enquanto esperávamos pelo comboio em Brockley, a escuridão, o vento frio e a chuva miudinha despertaram-me a mesma sensação de desconforto que, há 4 anos atrás, me deprimiam todo o santo dia;
2) já no Soho, com o André e a João, os planos foram por água abaixo, pois já se fazia tarde para ir dançar e a comunicação entre o André e o Mikey, mais uma vez, decorria com “algumas” interferências;
3) no regresso a casa, constatei a falta que não sentia – de todo – de viajar no N171, pejado de uma fauna nocturna nada atractiva e bem alcoolizada (felizmente, a João ia-me distraindo com as suas tolices);
4) no caminho a pé para casa, tivemos que contornar o cemitério de Brockley, o que aumentou exponencialmente a sensação de desconforto e o desejo de cairmos numa cama bem quentinha.

Poucos minutos depois, o desejo foi correspondido. Logo logo, adormecemos profundamente, deixando para trás um dia que, apesar do mau tempo e dos momentos estranhos, foi vivido a dois.

And that’s all that matters...

1 comentário:

Anónimo disse...

Gosto da tua habilidade com os eufemismos... algumas interferências...Lolol...