terça-feira, 13 de maio de 2008

Pina Bausch: A Sagração

Diz-se que em 1994, ano em que Lisboa foi Capital Europeia da Cultura, Portugal assumiu o seu enamoramento por Pina Bausch, uma das lendas vivas da Dança Contemporânea. Desde então, várias têm sido as ocasiões em que a sua companhia - a Tanztheater Wuppertal - nos tem visitado, enchendo páginas de jornais e esgotando salas.

Infelizmente, nunca tinha tido a oportunidade de ver a sua criação em palco... até há poucos dias atrás, graças à feliz iniciativa do CCB e do Teatro S. Luiz, que organizaram uma espécie de festival inteiramente dedicado à coreógrafa; e ao Mikey, que me ofereceu um bilhete.
Lisboa rendeu-se novamente a Pina Bausch... e eu também.

A Sagração da Primavera (1975)

Na noite de 4ª feira, o convite do Teatro S. Luiz era irrecusável. No Jardim de Inverno, iria ser exibida a peça "A Sagração da Primavera", por Pina Bausch, em registo de vídeo, com apresentação e debate dirigidos por Olga Roriz e Rui Horta. A entrada foi gratuita e o S. Luiz estava realmente de parabéns, pela oportunidade que estava ali a ser criada. A sala estava cheia, para uma noite de celebração - não só da arte da coreógrafa alemã, como também da Dança.

"A Sagração da Primavera" nasceu da vontade do compositor russo Igor Stravinsky em recriar um ritual pagão, perdido algures na nossa pré-história, através de uma partitura produzida para bailado. Corria a 1ª década do século XX e sentiam-se os primeiros desafios à ortodoxia do ballet clássico, pela mão de artistas como Vaslav Nijinsky. Seria ele mesmo a coreografar e a apresentar a obra pela 1ª vez, em 1913, no Théâtre des Champs-Élysées de Paris, sob o título "Le Sacre du Printemps: Tableaux de la Russie Païenne". As reacções foram de choque, perante uma estranha linguagem que rompia com a noção romântica do bailado: posturas rígidas e angulares, movimentos assimétricos e agressivos, o corpo no seu estado cru. Estava lançada a semente que iria revolucionar os cânones artísticos da época e culminar naquilo que hoje conhecemos como Dança Moderna ou Contemporânea.


Desde então, vários artistas reinventaram a obra de Stravinsky. Em 1975, seria a vez de Pina Bausch, que decidiu pegar na partitura original e moldá-la à sua visão.
O resultado foi uma peça minimalista e profundamente símbólica. Nela, somos transportados à condição original de seres descendentes da Terra, pela linguagem rígida dos membros inferiores do corpo, pela mistura da pele com a terra sobre a qual dançam os bailarinos. Nessa condição, somos seres que se elevam na experiência espiritual. Tronco e membros superiores contorcem-se em êxtase shamânico, para tudo culminar numa fusão cósmica: o sacrifício, o sangue, o vestido vermelho.
O momento final, o solo da "escolhida", é perturbador e absolutamente poderoso: o corpo é humano e animal selvagem, crescendo em agonia feroz e visceral, até sucumbir na morte. Após a exibição, Rui Horta contar-nos-ia que a bailarina havia realmente desmaiado, durante a gravação da peça.


Saí do teatro com a respiração suspensa. Finalmente tinha entendido a força criativa de Pina Bausch, que para mim havia cumprido um dos reais propósitos da Arte: o de nos ligar ao Divino.

Masurca Fogo (1998)

Depois do aperitivo, o tão esperado prato principal: ia finalmente assistir ao meu primeiro espectáculo do Tanztheater Wuppertal, ao vivo. Justamente o último deste "festival", num Grande Auditório do CCB totalmente esgotado. A despedida teria que ser em grande - que é o mesmo que dizer com "Masurca Fogo", obra concebida especialmente para a Expo 98 (há precisamente 10 anos atrás), através da qual Pina Bausch nos mostra a sua percepção de Lisboa.

Nesta obra, Bausch rompe as convenções formais, até mesmo do próprio conceito de espectáculo de dança, para montar uma obra multidimensional, dir-se-ia completa. "Masurca Fogo" é expansivo, teatral, musical, colorido, burlesco, festivo, terrivelmente sensual e incrivelmente humorístico.
No conteúdo, "Masurca Fogo" é alma portuguesa no seu estado clássico: o fado, o mar, a saudade, a Lisboa-mulher (a peixeira, a prostituta, a coquete ou a velhinha de preto que nos cumprimenta com um "Adeus" em vez de um "Olá") e o macho latino (o marialva, o galã apaixonado ou o compadre a jogar à malha). Mais ainda, são os espaços do quotidiano (a praia, a cidade, o bairro, o restaurante), os símbolos (a bica e o cigarro, a galinha e o alguidar) e a multiculturalidade (a morna de Cabo-Verde, o samba do Brasil).


E claro, é movimento, através de composições coreográficas enérgicas e vanguardistas, de tirar o fôlego... a dança contemporânea no melhor esta que nos pode oferecer. O final é memorável, com uma homenagem ao Amor, aquilo que temos de mais essencial.

Foi esta a marca que ficou, no momento em que as luzes se acenderam. Era inevitável, a ovação de pé. O que eu não esperava era ver a própria Pina Bausch entrar em cena, para retribuir o nosso agradecimento. Foi um momento de comoção, cuja vibração se sentiu na pele.

Obrigado Pina Bausch e Mikey, por terem tornado tudo isto possível para mim.

2 comentários:

Renato Vasconcellos disse...

Muito bom seus apontamentos sobre a obra de Pina Bausch. Sou brasileiro e apaixonado pelo trabalho dela.
Foi muito bom ler seu texto, porque através de seu olhar construo um pouco mais o meu sobre a obra daquela que foi a coreógrafa do final século.

Rui Clemente disse...

Que bom saber disso, Renato!
Obrigado e volte sempre.